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Dia do Açaí: pesquisa destaca papel das mulheres negras na história da fruta.

Dia do Açaí: pesquisa destaca papel das mulheres negras na história da fruta.

05/09/2026 17:24

Estudo da UFPA resgata a história de amassadeiras e vendedeiras que preparavam e comercializavam o açaí pelas ruas de Belém há mais de 150 anos.

Muito antes de o açaí conquistar consumidores em outras regiões do país, a fruta já fazia parte da alimentação e da economia de Belém. No século XIX, mulheres negras e mestiças eram responsáveis pelo preparo e pela venda da bebida, atividade que ajudava a garantir a sobrevivência de muitas trabalhadoras.

Elas eram conhecidas como “amassadeiras” e “vendedeiras” de açaí e aparecem em jornais, processos criminais, relatos de viajantes e imagens históricas analisados pela historiadora Caroline Porto Brito, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A pesquisa, intitulada “No encalço das libertas: a regulamentação dos serviços domésticos e as experiências de luta e trabalho nas ruas de Belém (1871-1898)”, foi desenvolvida durante dois anos de mestrado e inicialmente investigava os serviços domésticos e as mulheres que trabalhavam como criadas na capital paraense.

Os documentos encontrados, porém, mostraram que essas mulheres exerciam diferentes atividades ao longo do dia. Algumas trabalhavam como cozinheiras e, posteriormente, atuavam como doceiras ou vendedoras de alimentos nas ruas.

Antes das máquinas, o preparo era manual

No século XIX, quando ainda não existiam as máquinas utilizadas atualmente para bater o açaí, o preparo era feito manualmente. Um relato do viajante norte-americano Herbert H. Smith, que esteve na Amazônia em 1870, descreve duas mulheres preparando a fruta em grandes vasilhas com água.

Os frutos eram esfregados vigorosamente com as mãos até que a polpa se desprendesse dos caroços e tingisse a água de roxo. Depois, a bebida era passada por uma peneira de vime e servida aos clientes.

O trabalho exigia habilidade e também a confiança dos fregueses. A reputação das amassadeiras era importante para manter a clientela e garantir a renda.

Um dos casos encontrados na pesquisa é o de Theodora, uma amassadeira que, em 1885, recorreu a um jornal para defender sua reputação e o próprio comércio.

As vendedeiras também percorriam as ruas de Belém oferecendo a bebida de porta em porta, carregando recipientes de barro e gamelas sobre a cabeça.

Açaí fazia parte da alimentação

A pesquisa mostra ainda que o açaí já ocupava um espaço importante na alimentação dos moradores de Belém. A bebida podia ser consumida com farinha de mandioca ou açúcar e acompanhava alimentos como peixe e camarão. Também havia combinações com arroz, tapioca e mandioca puba.

A forma de consumo variava de acordo com o grupo social. A farinha era mais comum entre as camadas populares, enquanto o açúcar estava relacionado a determinado status social.

Trabalho também era marcado por conflitos e solidariedade

Os documentos analisados pela historiadora revelam que o comércio do açaí também era marcado por conflitos, furtos e episódios de violência.

Entre os registros aparecem histórias de trabalhadoras como Juliana Maria da Nazareth, que teve o dinheiro do comércio ameaçado, e Serafina Maria da Conceição, uma amassadeira que foi agredida após um desentendimento.

Ao mesmo tempo, os documentos mostram redes de amizade e solidariedade entre essas mulheres.

É o caso de Izabel Maria da Conceição, vendeira e amassadeira de açaí. Em um processo criminal, ela aparece como testemunha de uma agressão contra sua amiga Elisa Maria da Conceição. Depois do ataque, Izabel e suas filhas ajudaram a cuidar dos ferimentos da mulher.

Os registros analisados por Caroline ajudam a reconstruir parte da trajetória dessas trabalhadoras e mostram a importância que elas tiveram na vida urbana, na economia e na circulação do açaí pelas ruas de Belém.

Hoje, quando uma cuia de açaí chega à mesa, essa história nem sempre é lembrada. Antes das máquinas e da fama nacional da fruta, estavam as amassadeiras e vendedeiras, responsáveis por preparar e levar o açaí às ruas da capital paraense.

 

Fonte da notícia: G1 / Jornal Folha do Progresso